A nova guerra dos canudos

Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.

E foi, na significação integral da palavra, um crime.

Denunciemo-lo.

Foi com estas palavras que Euclides da Cunha anunciou, em 1901, o relato que faria do extermínio do jagunço destemeroso, do tabaréu ingênuo, do caipira simplório e de suas mulheres, crianças e velhos, lá no baiano Monte Belo, que veio a ser Canudos.

Pouco mais de um século depois, temos uma nova guerra dos canudos que, no fundo, é bem outra. O exército nacional não quer mais exterminar ninguém, mas alguém muito sabido, muito consciente, muito bonzinho e muito altruísta quer salvar os peixinhos do mar e decidiu que existe um grave pecado ao sul – e ao norte – do equador: usar canudinhos de plástico.

Na falta de um advogado para chamar de louco, temos um garotinho para chamar de gênio. E foi assim que Milo Cress, um pacato garoto americano do Estado de Vermont, então no auge de seus nove anos de idade, cientificamente tirou da própria cachola o número de que, só nos EUA, são consumidos 500 milhões de canudos plásticos por dia.

O número, tomado prontamente como verdade científica por gente como New York Times, CNN, Fox News e cientificamente papagaiado pela imprensa brasileira, é motivo suficiente para que, de Londres a Seattle, os terríveis canudos de plástico sejam banidos do mundo dos vivos.

Mas não só lá fora.

Em Porto Alegre, os edis bravamente enfrentaram quilômetros de ruas esburacadas para chegar à câmara de vereadores e fazer sua parte na gloriosa luta por Gaia, aprovando o PLL 85/2018, do vereador do PT Marcelo Sgarbossa.

No Rio de Janeiro, a cidade, já que é maravilhosa, foi pioneira na matéria, aprovando a Lei 6.384/2018. Lá, os correios vão continuar não entregando correspondências no morro, mas já há rumores de que, além dos portadores de guarda-chuvas, qualquer que ousar beber com canudinhos o seu suco de jabuticaba, com ou sem gás, estará sob a mira dos mais temíveis snipers do planeta.

Aliás, a consciência ambiental no Rio é tão grande que os traficantes praticamente eliminaram o uso de espingardas calibre 12 justamente por causa da quantidade de polietileno usada no tubo dos cartuchos, que não deixa de ser uma espécie de canudinho de plástico. Agora só usam fuzis, pois a munição possui apenas cartuchos de metal, perfeitamente recicláveis.

É claro que uma guerra tão importante não poderia ficar apenas no plano municipal. Para não sair da antiga sede da corte, o Estado do Rio de Janeiro, seguindo o pioneirismo da cidade, já prepara seu novíssimo estatuto do descanudamento, com o projeto de lei 2.015/2019 de autoria do deputado estadual André Correa.

E pouco importa que, banidos todos os canudos de plástico do mundo, não se chegue a 0,02% do resíduo plástico presente nos oceanos. Quem não se emocionaria com o vídeo dos bondosos pesquisadores com um alicate, tracionando um longo canudo de plástico para fora da narina da tartaruga marinha?

Não dá pra aguentar.

Tanto que o deputado federal Marcus Vicente, do PP/ES resolveu por um basta em tanta miséria e, criando o estatuto federal do descanudamento – PL 10.355/2018 – quer banir o uso, a comercialização e a fabricação de canudos plásticos no Brasil.

Mas pra que tanto barulho? É só um canudo, diz leitor (é difícil resistir à moda).

É só um canudo por enquanto, claro. Se os copos de plástico são tão maiores que os canudos, eles devem poluir muito mais. Vamos proibi-los.

E vejam bem, se os canudos que são 0,02% do lixo plástico dos oceanos já estão proibidos, porque não proibir algo tão mais danoso quanto as redes de pesca, como já se começou a pedir? Quem precisa comer peixe se temos tantas baratas no mundo?

O importante é que, ao aceitar bovinamente absurdas proibições de migalhas, nós assinamos inequivocamente nosso atestado de loucos e sonsos. Se um vereador pode proibir um canudinho, um copo, uma vassoura, um estilingue, o que ele não pode proibir?

Se podem controlar como você vai beber a sodinha na padaria da esquina, podem controlar tudo. E você aprova, claro.

Mas pensando bem, essa proibição pode ser boa.

Ainda mais em um país como o Brasil, que tanto preza a memória pessoal e nacional. O banimento dos canudos será um estímulo a este traço cultural marcante.

Na hora do lanche, balançando na rede, naquela sombra gostosa da varanda, você poderá encantar seus amigos oferecendo a limonada com o canudo de aço inox que seu tio-avô precisou usar para se alimentar de papinha batida quando sofreu aquele terrível acidente que o impediu de mastigar por sete meses seguidos.

Consciência ambiental, sustentabilidade e memória familiar combinados em um pequeno artefato de metal.

Seria até poético, se não fosse uma meleca. Você já tentou lavar um canudinho por dentro? Já calculou quanta água um ambientalista terá que gastar pra lavar por dentro um canudo para após toda a luta ter que o guardar com a certeza de que permanece sujo?

Mas tudo bem. Quando chegar a tua vez, pense nas tartarugas. Vai dar tudo certo.

 

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Rodrigo Martins Barbosa

Há alguns anos precisa de duas colunas do soroban para contar o tempo de advocacia. Vítima de lesão por legislação excessiva, não consegue mais acender os faróis do carro durante o dia desde a aprovação da lei 13.290/2016.