O evangelho fugindo de São Bureau

– Em verdade, em verdade vos digo que o reino dos céus…

– Ahn… Senhor…

– É semelhante…

– Mestre… uma palavrinha?

Jesus virou para o discípulo e com a sua calma que lhe era peculiar, disse:

– Pedro. Não dá para esperar um momento? Estou ensinando as coisas do alto para os meus discípulos e os preparando para levar as boas novas.

O constrangido apóstolo inclinou a cabeça, cerrou os lábios e espalmou as mãos.

– Pior que não dá, Senhor. É meio… urgente.

– E o que pode ser urgente, Pedro?

O apóstolo olhou para os outros onze e demais discípulos assentados próximo ao mestre e gaguejou.

– Então… Se-Senhor… sa-sabe… acho que…

– Fala logo – gritou um dos discípulos –, desembucha – disse outro –, você está atrapalhando – um tanto interrompeu.

Jesus virou para os seus.

– Amados, deixem o seu irmão falar.

Pedro respirou fundo e falou.

– Senhor, acho melhor conversarmos isso em particular.

– Pedro, para vós eu falo abertamente. Não tenho segredos dos meus discípulos e amigos.

O apóstolo bufou em desaprovação e temor, travou uma careta no rosto, gemeu, mas disse.

– Então… lembra a questão do peixe, Senhor? O peixe, o estáter…

– Sei. Pescou o peixe e pagou o tributo por mim e por você, certo Pedro? Se você está temendo não pescar tal peixe, não temas. Tenha fé em mim e você verá o milagre.

– Na verdade, Senhor, eu pesquei o peixe, abri a barriga, encontrei o estáter e levei até o publicano mais próximo para pagar o tributo. Mas aí começou o problema.

– Qual problema? – disse Jesus… e meia dúzia de discípulos, simultaneamente.

– O publicano disse que o estáter não paga todo o tributo.

– Como assim?

– Ele falou que não houve correção na tabela de imposto de renda dos últimos quatro anos, e com a perda inflacionária a alíquota incidente na base de cálculo não permite o recolhimento mínimo.

– Ahn?

– Na verdade, o estáter não deu nem para pagar a minha parte, muito menos a sua.

– Ahn?

– Então, Senhor. O publicano perguntou qual era o nosso grau de parentesco, se eu pagava as suas contas, ou qualquer coisa que nos ligasse juridicamente. Como eu não tinha prova disso, ele me disse que não posso incluir o Senhor como meu dependente. Até mesmo o André vai ter que fazer a sua declaração individual.

– Pedro.  – Jesus respirou fundo – O que está acontecendo, afinal de contas?

– Então, Senhor. Isso não é tudo. Tem mais e tem coisa pior.

– E o que pode ser pior do que isso?

– Como não fiz a declaração em anos anteriores e fiz apenas recolhimento parcial desse ano (do meu tributo, apenas), não consegui encaixar o caso em denúncia espontânea. Levei uma multa de 75% do valor atrasado, mais 20% (0,33% ao dia). Já o seu caso é mais grave. Foi passado para o tribuno local e, segundo ouvi, vão impor uma multa de 150%, além de que vão te processar por sonegação, fraude e conluio.

– Fraude? Conluio? Eu?

– Então. Segundo o tribuno, tu, Senhor, quis se passar por dependente tributário, enquanto claramente é o mestre e mentor de toda a organização. E o conluio se encaixa no fato de que o Senhor usa mulheres, solteiras, casadas e viúvas para o manter e esconder patrimônio. Ouvi alguns saduceus empolgados conversando com um centurião que vão iniciar uma tal de Operação Lava-Túnica. A coisa vai ficar feia, Senhor. Falam até em crucificação.

– A cruz está nos planos do Pai, sim. Mas por sonegação? Que artimanhas o diabo inventou dessa vez? Seus planos adquiriram um tom de crueldade nunca antes visto!

Jesus parecia indignado. Os outros discípulos não compreendiam a conversa. Entre eles sussurravam e se perguntavam “que tipo de parábola é essa?”

– Mas tem mais uma coisa, Senhor.

– Mais? Eles conseguiram mais o que?

– Alguns fariseus dizem que o Senhor se autointitula mestre, mas não tem diploma, não fez a prova para a ORP – Ordem dos Rabinos da Palestina – e não tem autorização para exercício da docência pelo MET – Ministério dos Escribas do Templo. E a acusação é agravada porque um dos saduceus diz que o seu caso se encaixa na recente jurisprudência romana que proibiu a educação domiciliar dos menores, até que o Sinédrio – no nível local – ou o Senado – no nível imperial – legisle sobre o caso.

– Educação domiciliar de menores?!

– Eles têm testemunhas do Senhor mandando deixar os pequeninos irem à ti, porque dos tais pertence o reino dos céus. Ah! Sim. Com essa frase eles querem incluir acusações como sedição, corrupção de menores e formação de organização paramilitar. Senhor, se me permite, eu aconselho sairmos daqui e pedirmos asilo político na Pérsia.

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Héber Paz de Lima

Cristão, esposo, pai, projeto de escritor e nas horas vagas é advogado. Gosta tanto da atividade legislativa que torce por mais recessos parlamentares.