Obstrução da justiça

­—Aonde pensa que vai, deputado?

—Ao banheiro, nobre colega.

—Agora?

—Já. Tô apertado!

—É número um ou número dois?

—Que importa?

—Um ou dois?

—É dois e urgente.

Torquato Pimenta, de supetão, agarrou o pulso de Porcão Tavares enquanto gritava ao policial legislativo que assistia à discussão:

—Prenda o deputado!

—Mas como? — Porcão gemeu intestinamente angustiado.

—Vossa excelência acaba de comer duas cédulas, subtraídas de uma eleição em que 513 eleitores produziram 514 votos. Carrega nas tripas a prova de um crime. Se quiser fazer número dois tem que ser no penico especial da polícia federal.

—Se me segura, faço nas calças, excelência.

—Pois que faça, nobre colega. Assim vossa excelência recupera provisoriamente a liberdade, mas tenho que apreender-te as calças.

—É ditadura! É ditadura! – Os gritos da oposição ocuparam o plenário, enquanto o deputado Moringa, com o raciocínio rápido e espírito prático que lhe era peculiar entregou um copo ao Porcão.

—Não quero beber leite, deputado Moringa.

—Não é leite, colega Porcão. É água com maisena. Prende o intestino.

—Brilhante, deputado Moringa, brilhante.

Do meio do plenário, veio o grito:

—Pela ordem, senhor presidente.

—Pois não, deputado Trovão. Vossa excelência tem a palavra.

—O deputado Moringa está querendo obstruir a justiça. Ele quer impedir a produção da prova.

O deputado Erudito Tosco, ao microfone:

—Pela ordem, senhor presidente.

—Pois não, deputado.

—O nobre deputado Trovão se equivocou na forma do seu pedido. Ele pediu a palavra pela ordem pra fazer um questionamento sobre o procedimento. Pra isso ele precisaria ter feito uma “questão de ordem”, já que, pelo regimento desta casa, usar a palavra “pela ordem” só é permitido para indagar ou reclamar contra o descumprimento do regimento.

—Senhor presidente, precisa decidir minha questão de ordem —, trovejou Trovão.

O presidente Asinino Mendes, cenho franzido, olhos concentrados e fala grave:

—Vossa excelência falou pela ordem e não questão de ordem. Não há questão de ordem para decidir, deputado.

—Senhor presidente, não brinque comigo. Precisa deliberar sobre o que falei. Se Vossa excelência demora o deputado Porcão bebe a maisena e tranca a prova.

—Mas o deputado falou pela ordem e, como bem pontuou o deputado Erudito Tosco, que muito honra esta casa com sua sabedoria e dedicação ao povo, falar pela ordem não permite questionar procedimento, mas apenas reclamar pelo cumprimento do regimento. E me parece, salvo melhor juízo, que o deputado queria questionar um procedimento…

—Vossa excelência não pode se furtar ao dever de decidir —, Trovão, marcando acelerado o compasso com o pé direito no carpete do plenário.

—Nada posso fazer, deputado. Sou escravo do regimento, vossa excelência bem sabe. Não posso desrespeitar a lei.

—Pois então faço uma questão de ordem. O deputado Moringa não pode usar…

—Porcão bebeu a maisena. Está presa a prova.

—Bebeu?

O presidente Asinino:

—Vai concluir sua questão de ordem, deputado Trovão?

Com semblante aliviado, vem o deputado Porcão caminhando da direção dos banheiros.

Trovão:

—Deputado Torquato, vossa excelência soltou o Porcão?

—Pois sim, nobre colega Trovão. Se vossa excelência deduzia pedido ao presidente da casa, cabia-me confiar nas nossas instituições e adotar o devido processo legal em lugar de exercer minhas razões. E ele bebeu a maisena. A prova está segura. A produção foi meramente adiada.

—Bebi nada. Bebeu o deputado Moringa. Eu me fui ao banheiro.

—Mas vossa excelência encobre a fraude e por cima elimina a prova?— trovejou o deputado Trovão.

—Que é isso, deputado? Que fraude? Vossa excelência está me acusando? Com que provas?

Trovão murchou num murmurinho. Do meio do plenário se ouve:

—Questão de ordem, senhor presidente.

Assim seguem, funcionando, as nossas instituições.

E o intestino do Porcão.

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Rodrigo Martins Barbosa

Há alguns anos precisa de duas colunas do soroban para contar o tempo de advocacia. Vítima de lesão por legislação excessiva, não consegue mais acender os faróis do carro durante o dia desde a aprovação da lei 13.290/2016.