Pesquisa indiscreta

— Boa tarde!

— Boa tarde! – emenda Eleutério – enquanto descasca uma laranja.

— Meu nome é Lara, sou da Tellus, uma agência de pesquisas a serviço da DAE de Gravatá do Oeste. O senhor teria alguns minutinhos para responder algumas perguntas para melhoria da DAE (Departamento de Água e Esgotos)?

— Mas é craro, moça.

Dá-se início a um longo e demorado questionário:

— No geral, qual a nota que o senhor dá para a qualidade da água, em uma escala de zero a dez?

Óia, a qualidade da água não é lá aquelas coisa não, sabe? Mas anota cinco aí. – responde Eleutério, mastigando um gomo da laranja cortada com seu afiado canivete de picar fumo.

Lá pelas tantas, a pesquisadora que já havia bebido toda a água que trouxera consigo naquela tarde quente e abafada de Gravatá do Oeste, pede ao pesquisado:

— Seu Eleutério, o senhor tem um copo de água pra me servir? Está calor hoje, não?

— Tenho sim. Craro que tenho. – Juventina! – grita para a esposa, sentada na varanda do casebre, a observar com desconfiança a bela moça da cidade grande. – Traz um copo d’água pra moça aqui, senão ela vai passar mal. Não deve di tá acostumada com a cidade.

A pesquisadora agradece e prossegue:

— Já estamos terminando tá, senhor Eleutério?

— Tá bão. – concorda o cidadão Gravataense.

Meia-hora depois, a pergunta fatídica:

— Senhor Eleutério, o senhor sabe que hoje em dia é possível a captação e o tratamento da água para consumo humano através de diversas fontes, além dos rios e riachos, com capacidade de suprir uma cidade do porte da sua?

— Sei sim, dona.

— E o senhor estaria disposto a pagar uma taxa a título de investimento no valor de R$ 2,00 por mês durante um ano para a construção de um centro de captação de água da chuva para ajudar no abastecimento da população durante os meses mais secos do ano?

Eleutério, matuto como ele só, lançando mão do mesmo canivete melado à laranja, lentamente pica um pedaço de seu fumo de corda preferido e dispara:

Óia, moça. Aqui em Gravatá esse negócio não funciona. Pegá água de chuva e guardar onde, se nem chuva dereito a gente tem?

— Então o senhor não ajudaria?

Di jeito manera!

— OK! Não concorda. – registra a pesquisadora.

Quase ao término da enquete, Rosildo, o caçula dos doze filhos de Eleutério e Juventina passa correndo entre a pesquisadora e o pesquisado.

Na pressa de brincar com o vizinho, o garoto deixa cair a manga que apanhara no quintal de casa.

— Puxa. Bem no meu tênis branco. – reclama a profissional, com um sorriso colorido igual ao da fruta.

— Criança é terrívi. – exclama Juventina, enquanto se delicia com a situação.

— Não por isso! Tem uma torneira bem ali no canto do muro, a senhora pode lavá seu carçado.

— Posso jogar um pouquinho de água mesmo, seu Eleutério?

Craro!

Críííc – soa a velha torneira metálica ao ser aberta.

E…

— Uai! Mais nóis mora na parte mais baixa da cidade! Será que os muleque fecharo o registro di novo? – Juventina ri escondido.

Confere o hidrômetro.

Ara! E não é que tá faltando água memo? Mas não se preocupe, moça. Lá no fundo di casa tem um poço.

Pensativa. A bela pesquisadora caminha junto do matuto.

“É! Se esse pessoal dependesse da companhia de água…”

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Henrique Paulino Machado

Tintureiro de terceiro assistente de carimbador de escritor. Tem especial apreço pela política. É cristão. Futebol não é lá sua praia, melhor nem contar para quem torce.