Violência: a culpa é dos jogos?

A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), acatando um pedido do senador Eduardo Girão (Pode-CE), fará uma audiência pública sobre a “influência de jogos violentos no comportamento infanto-juvenil”.

Segundo o senador, “o conteúdo dos jogos estimula a violência, não há um controle nem na comercialização e não há regulamentação sobre a idade para comprar tais jogos”.  Além de tentar ligar os jogos à tragédia ocorrida recentemente em Suzano-SP, também afirma que tais jogos “movimentam bilhões de dólares”.

Quero demonstrar por este artigo o quanto o referido senador está equivocado. Ou ainda, demonstrar que ele sequer procurou se informar sobre o assunto em questão.

Proibição de jogos violentos

Aparentemente o senador é favorável à proibição de tais jogos no Brasil. Ou que exista algum tipo de controle.

Jogos com tema de violência já foram proibidos no Brasil sendo posteriormente liberados.

Culpar os jogos em um país com taxas de violência crescendo ano após ano parece-me algo muito simplista. Caso seja feito um levantamento de crimes cometidos por jovens, quantos desses jovens teriam tido acesso aos jogos violentos? Creio que pouquíssimos.

O conteúdo dos jogos estimula a violência em crianças?

Existem pesquisas dizendo que sim, podem estimular o comportamento agressivo das crianças e que não, os jogos não estimulam o comportamento das crianças. Ou seja, é um assunto controverso (e certamente não é a causa da maior parte da criminalidade e violência existente entre os jovens).

Digamos que as pesquisas que afirmam que os jogos estimulem a agressividade em crianças estejam certas. Isso é motivo para proibir os jogos? Óbvio que não! Abaixo tento demonstrar alguns dos motivos:

Controle na comercialização e regulamentação sobre a idade

Diferentemente do que afirma o senador, o Sistema de Classificação Indicativa Brasileiro inclui também os jogos. Existem também procedimentos específicos para a classificação de jogos e aplicativos. Esses procedimentos são baseados no sistema internacional IARC.

Cabe aos pais ou responsáveis verificar a classificação indicativa e avaliar se é apropriada para seus filhos.

O caso de Suzano

O senador insinua que os “jovens de Suzano” foram influenciados pelos jogos. Um deles (Luiz Henrique de Castro) não era tão jovem, tinha 25 anos. Logo, tinha idade suficiente (excetuando a possibilidade de algum distúrbio mental) para distinguir sobre o certo e o errado. O outro (Guilherme Taucci Monteiro) tinha 17 anos, morava com os avós, e sua mãe é usuária de drogas.

Mas a culpa é dos jogos!

Bilhões de dólares

Certo, jogos movimentam bilhões de dólares. Mas e daí? Por que isso incomodaria o senador (ou o Estado)? Wendy Aelson Carvalho nos dá a resposta em seu artigo Quem quer jogar com o Estado?: “O Leviatã por vezes pode se comportar como um chato aluno novato, que fica tentando provar o quanto é legal a todo custo, mas o que ele quer, na verdade, é sugar o que puder de quem produz.”

Cuidado com as “bondades” de certos representantes do Estado. Sua liberdade pode estar em jogo.

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Wagner Ponciano de Souza

Desenvolvedor de software há "alguns" anos.